terça-feira, 16 de abril de 2013

A Existênica Ética

A EXISTÊNCIA ÉTICA(Marilena Chauí)
Muitas vezes, tomamos conhecimento de movimentos nacionais e internacionais de luta contra a fome. Ficamos sabendo que, em outros países e no Brasil, milhares de pes­soas morrem de penúria e inanição. Sentimos piedade e fi­camos indignados. Movidos pela solidariedade, participa­mos de campanhas contra a fome. Esses sentimentos e as ações desencadeadas por eles exprimem nosso senso mo­ral, a maneira como avaliamos nossa situação e a de nossos semelhantes segundo idéias como as de justiça e injustiça.
Quantas vezes, levados por um impulso incontrolável ou por uma emoção forte, fazemos alguma coisa de que, depois, sentimos vergonha, remorso, culpa? Esses senti­mentos também exprimem nosso senso moral, isto é, a avaliação de nosso comportamento segundo idéias como as de certo e errado.
Em muitas ocasiões, ficamos contentes e emociona­dos diante de uma pessoa cujas palavras e ações manifes­tam honestidade, honradez, espírito de justiça, altruísmo. Sentimos que há grandeza e dignidade nessa pessoa. Sen­timos admiração por ela e desejamos imitá-Ia. Tais emo­ções e sentimentos também exprimem nosso senso moral, isto é, a maneira como avaliamos a conduta e a ação de outras pessoas segundo idéias como as de mérito e gran­deza de alma.
Situações como essas surgem a todo momento em nossa vida. Nossas dúvidas quanto à decisão a tomar não manifestam nosso senso moral, mas põem à prova nossa consciência moral, pois exigem que, sem sermos obriga­dos por outros, decidamos o que fazer, que justifiquemos para nós mesmos e para os outros as razões de nossas deci­sões e que assumamos todas as conseqüências delas.
Em outras palavras, a consciência moral não se limita aos nossos sentimentos morais, mas se refere também a avaliações de conduta que nos levam a tomar decisões por nós mesmos, a agir em conformidade com elas e a respon­der por elas perante os outros.
Os exemplos mencionados indicam que o senso moral e a consciência moral referem-se a valores (justiça, honra­dez, espírito de sacrifício, integridade, generosidade), a sentimentos provocados pelos valores (admiração, vergo­nha, culpa, remorso, contentamento, cólera, amor, dúvida, medo) e a decisões que conduzem a ações com conse­qüências para nós e para os outros. Embora os conteúdos dos valores variem, podemos notar que se referem a um valor mais profundo, mesmo que apenas subentendido: o bom ou o bem.
Os sentimentos e as ações, nascidos de uma opção entre o bom e o mau ou entre o bem e o mal, também se referem a algo mais profundo e subentendido: nosso dese­jo de afastar a dor e o sofrimento e de alcançar a felicida­de, seja por ficarmos contentes conosco mesmos, seja por recebermos a aprovação dos outros.
Além disso, os sentimentos e as ações morais são aqueles que dependem apenas de nós mesmos, que nas­cem de nossa capacidade de avaliar e decidir por nós mes­mos e não levados por outros ou obrigados por eles; em outras palavras, o senso e a consciência morais têm como pressuposto fundamental a idéia de liberdade do agente.
O senso moral e a consciência moral dizem respeito a valores, sentimentos, intenções, decisões e ações referidos ao bem e ao mal, ao desejo de felicidade e ao exercício da liber­dade. Dizem respeito às relações que mantemos com os ou­tros e, portanto, nascem e existem como parte de nossa vida com outros agentes morais. O senso e a consciência morais são por isso constitutivos de nossa existência intersubjetiva, isto é, de nossas relações com outros sujeitos morais.
Se dissermos: "Está chovendo", estaremos enuncian­do um acontecimento constatado por nós, e o juízo profe­rido é um juízo de fato. Se, porém, falarmos: "A chuva é boa para as plantas" ou "A chuva é bela", estaremos inter­pretando e avaliando o acontecimento. Nesse caso, profe­rimos um juízo de valor.
Juízos de fato são aqueles que dizem o que as coisas são, como são e por que são. Em nossa vida cotidiana, mas também na metafísica e nas ciências, os juízos de fato es­tão presentes. Diferentemente deles, os juízos de valor são avaliações sobre coisas pessoas, situações, e são proferi­dos na moral, nas artes, na política, na religião.

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