COMO FUNCIONA SOCIEDADE?
(Cap. 4-
Introdução à sociologia/Pérsio Santos Oliveira)
Os alunos de uma escola resolvem fazer uma limpeza geral
no salão de festas para a baile de formatura. Organizam-se, um ajuda a outro e
logo o trabalho está acabado. Esse resultado foi possível porque houve
cooperação. A cooperação é um tipo de
processo social.
A palavra processo vem do latim procedere, que significa
avançar, progredir. Designa a continua mudança de alguma coisa numa certa
direção. Seu significado, portanto, contém as idéias de tempo e de movimento, de pequenas alterações em um
fenômeno, de evolução, de mudanças moleculares e podem levar a transformações
mais profundas.
Processo social indica, assim, interação social,
movimento, evolução, mudança nas relações
sociais e na sociedade. Os processos sociais são as diversas maneiras
pelas quais indivíduos e grupos atuam uns com os outros, a forma pela qual os
indivíduos se relacionam e estabelecem relações sociais no transcorrer do
tempo.
Qualquer mudança proveniente dos contatos sociais e da
interação social entre os membros de uma
sociedade constitui, portanto, um processo social.
Processos associativos e
dissociativos
No grupo social ou na sociedade como um todo, indivíduos
e grupos se reúnem e se separam, associam-se e dissociam-se. Dessa forma, os
processos sociais podem ser associativos ou dissociativos.
Os processos associativos estabelecem formas e
cooperação, convivência e consenso no grupo . Geram, portanto, laços de
solidariedade. Já os dissociativos estão relacionados a formas de divergência, oposição e conflito, que podem
se manifestar de modos diferentes. São responsáveis, assim, por tensões no
interior da sociedade.
Os principais processos sociais associativos são a cooperação, a acomodação e a assimilação.
Os principais processos sociais dissociativos são a competição e o conflito.
A seguir, vamos estudar os processos associativos e os
processos dissociativos. Você vai perceber que não seguimos a ordem
apresentada no esquema anterior. Isso se deve, em parte, à necessidade de se priorizarem certos
processos, seja para facilitar o entendimento de outro, seja porque a partir
dele podem surgir novos processos.
Cooperação
A cooperação é a forma de interação social na qual
diferentes pessoas, grupos ou comunidades trabalham juntos para um mesmo fim.
São exemplos de cooperação: a reunião de vizinhos para
limpar a rua, ou de pessoas para fazer uma festa; mutirões de moradores para
construir conjuntos habitacionais; sociedades cooperativas, etc.
A cooperação pode ser direta ou indireta. Cooperação direta. Compreende as ações
que as pessoas realizam juntas, como é o caso do mutirão. Mutirões são
atividades que reúnem diversas pessoas em um esforço comum para alcançar determinado
objetivo. Nos bairros populares da periferia de grandes cidades no Brasil, por
exemplo, não é raro que pessoas ligadas por laços de amizade trabalhem juntas
nos fins de semana para construir a casa de uma delas. Quando a casa está
pronta, as mesmas pessoas passam a cooperar na construção da casa de outra
família integrante do grupo.
Cooperação indireta. É aquela em que as pessoas, mesmo realizando
trabalhos diferentes, necessitam indiretamente umas das outras, por não serem
auto-suficientes. Tomemos o exemplo de um médico e de um lavrador: o médico não
pode viver sem o alimento produzido pelo lavrador, e este necessita de
cuidados médicos quando fica doente. Existe, assim, entre eles, uma relação de
complementaridade.
Uma das diferenças entre a cooperação direta e a indireta
está no fato de, no primeiro caso, se desenvolverem relações de solidariedade e
apoio mútuo entre as pessoas envolvidas. Isso não ocorre quando a cooperação é
indireta, pois nesse caso as pessoas- envolvidas não estão ligadas por um
esforço coletivo destinado a conquistar um objetivo comum.
Competição
Segundo o cientista social H. Friedsam, competição é uma
forma de interação que envolve luta ou disputa por bens limitados ou escassos.
Essa interação é regulada por normas, pode ser direta ou indireta, pessoal ou
impessoal, e tende a excluir o uso da força e da violência. Os bens em jogo,
acrescenta P. Fairchild, "podem ser objetos físicos ou materiais, assuntos
de estima pessoal, dignidade ou recompensa não-material. A essência da
competição é um choque tal de interesses que o atendimento de um indivíduo ou
entidade impede o atendimento de outro indivíduo ou entidade" (FRIEDSAM,
H. e FAIRCHILD, P. In: Dicionário de Ciências
Sociais. Rio de Janeiro: Editora da
Fundação Getúlio Vargas, 1987. p. 218-9).
Em outras palavras, competição é uma disputa entre
indivíduos, grupos ou sociedades por bens que não chegam para todos (bens
escassos). A competição pode levar indivíduos a agir uns contra os outros em
busca de urna situação melhor. Ela nasce dos mais variados desejos humanos,
como ocupar uma posição social mais elevada, ter maior importância no grupo
social, conquistar riqueza e poder, vencer um torneio esportivo, ser o primeiro
da classe, passar no vestibular, vencer um concurso, etc.
Ora, nem todos podem obter os melhores lugares nas
esferas sociais, pois os postos mais importantes são em número muito menor do
que seus pretendentes, isto é, são escassos - da mesma forma que o número de
vagas no vestibular é pequeno em comparação com o número de candidatos em
disputa (veja o boxe a seguir). Assim, os que pretendem alcançar esses postos
ou vagas entram em competição com os demais concorrentes.
Nessa disputa, as atenções de cada competidor estão voltadas para a recompensa
e não para os outros concorrentes.
É importante também observar
que a competição "tende a excluir o uso da força", nas palavras de
Friedsam. Isso porque ela constitui um tipo de interação regulada por normas,
por leis, ou mesmo pelos costumes. Quando a competição viola essas normas,
transforma-se em conflito.
Há
sociedades que estimulam mais a competição do que outras. Entre as tribos
indígenas do Brasil, por exemplo, as relações não são tão acentuadamente
competitivas como na sociedade capitalista. Esta última estimula os indivíduos
a competirem em todas as suas atividades - na escola, no trabalho e até no
lazer -, exacerbando o individualismo em prejuízo da cooperação.
Conflito
Quando
a competição assume características de elevada tensão social, sobrevém o
conflito.
Diariamente,
lemos e ouvimos no noticiário dos jornais, do rádio e da televisão relatos de
conflitos em diversas partes do mundo: combates na Colômbia entre tropas do
governo e guerrilheiros ou narcotraficantes; ocupações de fazendas pelo
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) no interior do Brasil, às
vezes seguidas (ou precedidas) de assassinatos de líderes sindicais a mando de
grandes fazendeiros; conflitos entre israelenses e palestinos no Oriente
Médio; choques armados entre soldados norte-americanos e rebeldes muçulmanos
no Iraque.
O
conflito social é um tipo de interação que se desenrola no tempo e provoca
mudanças na sociedade, tal como a competição. Trata-se, portanto, de um
processo social. Em contraste com a competição, ele consiste em uma luta por
bens, valores ou recursos escassos, na qual o objetivo dos contendores é
neutralizar ou aniquilar seus oponentes. Dessa forma, ao contrário da
competição, o conflito envolve, em maior ou menor escala, o emprego da violência.
Competição e conflito
Comparando
a competição e o conflito, podemos destacar as seguintes características:
- A
competição pode tomar a forma de luta pela existência, como a que se estabelece
entre indivíduos para a obtenção de alimento ou emprego, por exemplo;
- O
conflito pode tomar a forma de rivalidade, disputa, revolta, revolução, litígio
ou guerra.
- O conflito é bem evidente na luta entre
patrões e empregados em determinadas situações (greves, por exemplo), nas
disputas pela posse da terra entre latifundiários e trabalhadores rurais
sem-terra, ou ainda na guerra entre nações;
- A
competição pode ser consciente ou inconsciente; o conflito é sempre
consciente, ou seja, os adversários sabem que estão em oposição;
- A
competição é impessoal; o conflito é pessoal e, portanto, emocional;
- o conflito pode implicar violência ou ameaça
de violência; já a competição não envolve violência;
- Enquanto
a competição é contínua, o conflito não pode durar permanentemente com o mesmo
nível de tensão;
- No
conflito, o primeiro impulso dos oponentes é tentar neutralizar ou destruir o
adversário. Pessoas ou grupos em conflito podem canalizar sua tensão tanto
para a guerra como para a criminalidade, ou ainda reduzi-la a um processo de
acomodação. Nem todos os conflitos, contudo, se resolvem pela violência. Muitos
deles comportam negociações e acordos entre as partes. Esse é o caso, por
exemplo, das greves de trabalhadores, uma forma de pressão para obter
conquistas, como melhores salários, menos horas de trabalho, etc. Muitas
dessas paralisações são solucionadas por meio de acordos ou concessões mútuas
entre patrões e empregados.
Terrorismo
O
conflito pode levar ainda a outra forma extrema de violência: o terrorismo, resultado de situações extremas
de opressão ou exclusão de grupos sociais, políticos, étnicos, nacionais ou religiosos.
Essas situações estimulam o surgimento do extremismo político ou religioso
(neste caso, chamado de fundamentalismo). Enquanto todas as formas de conflito,
inclusive as guerras, levam a uma solução, seja pelos processos de acomodação,
seja pela assimilação, o mesmo não ocorre com o terrorismo. Incapaz de impor-se
pela ação política ou pela força das idéias, ele procura destruir o adversário
sem medir as conseqüências.
Durante
certo tempo, cientistas sociais consideraram
o terrorismo uma característica de sociedades retrógradas. Alguns
chegaram a supor que o processo de modernização das sociedades viria, cedo ou
tarde, pôr um fim aos atentados, mesmo que em um ou outro lugar pudessem
ocorrer atos isolados.
Os
acontecimentos mais recentes, contudo, não comprovam essa teoria. O sacrifício
de pessoas em nome de urna causa entra, dessa maneira, na era da globalização.
O atentado de 11 de setembro de 2001 - quando foram destruídas as torres
gêmeas do World Trade Center de Nova York, nos Estados Unidos - mostra que
nenhum país está imune a esse perigo. Ele pode atingir igualmente militares e
civis; pode ocorrer na Nigéria, na Arábia Saudita, na Inglaterra, na Espanha,
nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar do mundo.
Hoje, o terrorismo encontra adeptos entre pessoas e grupos
que se sentem excluídos num mundo que está se globalizando rapidamente. Alguns
deles temem perder suas culturas e tradições religiosas, como ocorre com os
fundamentalistas muçulmanos. Outros se desesperam porque estão impedidos de ter
sua própria pátria - ou seja, seus Estados nacionais e soberanos. Este é o caso
dos palestinos no Oriente Médio. Em sua ação devastadora, provocam uma reação
igualmente perversa: o terrorismo
de Estado.
Acomodação
Nem todo conflito termina com a extinção do oponente
derrotado. Em alguns casos, este pode aceitar as condições impostas pelo
vencedor para fugir à ameaça de destruição. Ocorre, assim, um processo de acomodação, pois o vencido acata as condições do vencedor e adota uma
posição de subordinação.
A escravização dos povos vencidos, comum na Antiguidade, é
um caso típico de acomodação. Quando alguém cumpre uma lei ou segue um costume
com os quais não concorda, só para evitar sanções ou divergências, também se
enquadra num processo de acomodação.
Da mesma forma, imigrantes que chegam a outro país são
levados a passar por processos de acomodação: deixam de lado sua língua e seus
costumes, adotam modos de vida do povo que os acolheu e adaptam-se às
condições da nova vida. Procuram assim se prevenir contra possíveis conflitos e
viver em equilíbrio com o meio social que os cerca.
Desse modo, a acomodação é o processo social pelo qual o indivíduo ou o grupo se ajusta a
uma situação de conflito, sem que ocorram transformações internas. Trata-se,
portanto, de uma solução superficial do conflito, pois este continua latente,
isto é, pode voltar a se manifestar. Isso acontece porque nos processos de
acomodação continuam prevalecendo os mesmos sentimentos, valores e atitudes
internas que separam os grupos. As mudanças são apenas exteriores e
manifestam-se somente enquanto comportamento social.
Os escravos, por exemplo, nunca aceitaram a situação de servidão
que lhes era imposta. Apenas se acomodavam à dominação,
mas sempre que podiam se rebelavam. Revoltas de escravos ocorreram em diversas
épocas da História. A mais famosa delas foi a rebelião de Espártaco, gladiador
que liderou cerca de 120 mil escravos contra a República romana entre 73 e 71 a .C. Nesse caso, a
acomodação se transforma em conflito social, que pode assumir (ou não) grandes
proporções. Em Roma, a rebelião liderada por Espártaco durou três anos e ficou
conhecida como Guerra
dos Escravos.
No Brasil, uma das formas de resistência contra a
escravidão foi a fuga seguida da formação de quilombos - aldeamentos fortificados, nos quais os
ex-escravos passavam a viver da caça, da pesca, do artesanato e da
agricultura. O maior e mais duradouro desses aldeamentos foi o quilombo de Palmares, situado na capitania de Pernambuco. Palmares,
que chegou a reunir cerca de 20 mil pessoas no interior de suas paliçadas e
muralhas, funcionava como um pequeno Estado governado por seu próprio rei e
resistiu a inúmeros ataques de forças portuguesas e holandesas entre 1600 e
1694, quando só então foi destruído.
Também no caso dos imigrantes, verifica-se entre eles a
tendência a preservar certos traços fundamentais de sua própria cultura e a
formar redes de ajuda mútua que os mantêm agrupados em comunidades no interior
do país onde passam a viver.
A acomodação é, assim, o ajustamento de indivíduos ou
grupos apenas nos aspectos externos de seu comportamento. Ela atenua ou previne
o conflito. Mas este só desaparece com a assimilação.
ASSIMILAÇÃO
A assimilação é a solução definitiva e mais ou menos
pacífica do conflito social. Trata-se de um processo de ajustamento pelo qual
os indivíduos ou grupos antagônicos tornam-se semelhantes. Difere da acomodação
porque implica transformações internas nos indivíduos ou grupos, sendo estas
geralmente inconscientes e involuntárias. Tais modificações internas envolvem
mudanças na maneira de pensar, de sentir e de agir.
A assimilação se dá por mecanismos de imitação, exigindo
um certo tempo para se completar. É um processo longo e complexo.
Um exemplo de assimilação é o do imigrante que se integra
inteiramente à sociedade que
o acolhe. Ele, que a princípio se acomodou por conveniência ao novo país, vai
aos poucos deixando-se envolver pelos costumes, símbolos, tradições e língua
do povo desse país. Não se trata, porém, de um processo que atinja todos os
imigrantes, mas somente uma parte deles.
No Brasil, ocorreram casos de assimilação entre os alemães
em Santa Catarina
e os italianos em São
Paulo. No início, esses imigrantes falavam sua própria língua
e conservavam seus valores e costumes. Ao preservar essas características, cada
grupo se constituía em urna espécie de corpo estranho na sociedade brasileira.
Apenas quando as características marcantes da cultura de
origem se atenuaram ou se desfizeram - sendo substituídas pelos hábitos e
costumes locais - os imigrantes puderam ser assimilados pela nova sociedade.
Aos poucos, eles se desfizeram de sua identidade cultural e
passaram
a observar os sentimentos e valores da nova cultura, tornando-se parte
integrante da sociedade adotada.
Concluindo, o aspecto importante da assimilação é que ela
implica uma transformação do sentimento de identidade. O processo de
assimilação atinge áreas profundas e extensas da personalidade, determinando
novas formas de pensar, sentir e agir.
Questionário
1-
O que significa processo social?
2-
Cite
04 exemplos de processos sociais que ocorrem dentro da sala de aula.
3-
O que
é processo social associativo?
4-
O que
é processo social dissociativo?
5-
Quais
são os principais processos sociais associativos?
6-
Quais
são os principais processo sociais dissociativos?
7-
Os processos sociais incluem mudanças ao longo do tempo. Para
você, isso significa que só existe processo social quando a sociedade sofre
transformações radicais? Que espécie de mudanças ocorrem nos processos sociais?
8-
Quais as diferenças entre competição e conflito social? Cite três
exemplos de conflito e três de competição.
9-
Explique a diferença entre acomodação e assimilação.
10- O vestibular é uma forma
de processo social dissociativo? Ele gera competição? Justifique sua resposta.
11- Como podemos
desenvolver o processo social de assimilação e cooperação dentro da sala
de aula?
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