segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Processos Sociais

COMO FUNCIONA  SOCIEDADE?
 (Cap. 4- Introdução à sociologia/Pérsio Santos Oliveira)
Os alunos de uma escola resolvem fazer uma limpeza geral no salão de festas para a baile de formatura. Organizam-se, um ajuda a outro e logo o trabalho está acabado. Esse resultado foi possível porque houve cooperação. A  cooperação é um tipo de processo social.
A palavra processo vem do latim procedere, que significa avançar, progredir. Designa a continua mudança de alguma coisa numa certa direção. Seu significado, portanto, contém as idéias de tempo  e de movimento, de pequenas alterações em um fenômeno, de evolução, de mudanças moleculares e podem levar a transformações mais profundas.
Processo social indica, assim, interação so­cial, movimento, evolução, mudança nas relações  sociais e na sociedade. Os processos sociais são as diversas maneiras pelas quais indivíduos e grupos atuam uns com os outros, a forma pela qual os indivíduos se relacionam e estabelecem relações sociais no transcorrer do tempo.
Qualquer mudança proveniente dos contatos so­ciais e da interação social entre os membros de uma  sociedade constitui, portanto, um processo social.
Processos associativos e dissociativos
No grupo social ou na sociedade como um todo, indivíduos e grupos se reúnem e se separam, asso­ciam-se e dissociam-se. Dessa forma, os processos sociais podem ser associativos ou dissociativos.
Os processos associativos estabelecem formas e cooperação, convivência e consenso no grupo . Geram, portanto, laços de solidariedade. Já os dissociativos estão relacionados a formas de divergência, oposição e conflito, que podem se manifestar de modos diferentes. São responsáveis, assim, por tensões no interior da sociedade.
Os principais processos sociais associativos são a cooperação, a acomodação e a assimilação.
Os principais processos sociais dissociativos são a competição e o conflito.
A seguir, vamos estudar os processos associa­tivos e os processos dissociativos. Você vai per­ceber que não seguimos a ordem apresentada no esquema anterior. Isso se deve, em parte, à ne­cessidade de se priorizarem certos processos, seja para facilitar o entendimento de outro, seja por­que a partir dele podem surgir novos processos.
Cooperação
A cooperação é a forma de interação social na qual diferentes pessoas, grupos ou comunidades trabalham juntos para um mesmo fim.
São exemplos de cooperação: a reunião de vizi­nhos para limpar a rua, ou de pessoas para fazer uma festa; mutirões de moradores para construir conjun­tos habitacionais; sociedades cooperativas, etc.
A cooperação pode ser direta ou indireta. Cooperação direta. Compreende as ações que as pessoas realizam juntas, como é o caso do mu­tirão. Mutirões são atividades que reúnem diversas pessoas em um esforço comum para alcançar deter­minado objetivo. Nos bairros populares da periferia de grandes cidades no Brasil, por exemplo, não é raro que pessoas ligadas por laços de amizade tra­balhem juntas nos fins de semana para construir a casa de uma delas. Quando a casa está pronta, as mesmas pessoas passam a cooperar na construção da casa de outra família integrante do grupo.
Cooperação indireta. É aquela em que as pessoas, mesmo realizando trabalhos diferentes, necessitam indiretamente umas das outras, por não serem auto-suficientes. Tomemos o exemplo de um médico e de um lavrador: o médico não pode viver sem o alimento produzido pelo lavra­dor, e este necessita de cuidados médicos quando fica doente. Existe, assim, entre eles, uma relação de complementaridade.
Uma das diferenças entre a cooperação direta e a indireta está no fato de, no primeiro caso, se desenvolverem relações de solidariedade e apoio mútuo entre as pessoas envolvidas. Isso não ocor­re quando a cooperação é indireta, pois nesse caso as pessoas- envolvidas não estão ligadas por um esforço coletivo destinado a conquistar um obje­tivo comum.
Competição
Segundo o cientista social H. Friedsam, com­petição é uma forma de interação que envolve luta ou disputa por bens limitados ou escassos. Essa interação é regulada por normas, pode ser dire­ta ou indireta, pessoal ou impessoal, e tende a excluir o uso da força e da violência. Os bens em jogo, acrescenta P. Fairchild, "podem ser objetos físicos ou materiais, assuntos de estima pessoal, dignidade ou recompensa não-material. A essência da competição é um choque tal de interesses que o atendimento de um indivíduo ou entidade impede o atendimento de outro indivíduo ou enti­dade" (FRIEDSAM, H. e FAIRCHILD, P. In: Dicioná­rio de Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1987. p. 218-9).
Em outras palavras, competição é uma dispu­ta entre indivíduos, grupos ou sociedades por bens que não chegam para todos (bens escassos). A competição pode levar indivíduos a agir uns contra os outros em busca de urna situação melhor. Ela nasce dos mais variados desejos humanos, como ocupar uma posição social mais elevada, ter maior importância no grupo social, conquistar riqueza e poder, vencer um torneio esportivo, ser o primeiro da classe, passar no vestibular, vencer um concur­so, etc.
Ora, nem todos podem obter os melhores lugares nas esferas sociais, pois os postos mais importantes são em número muito menor do que seus pretendentes, isto é, são escassos - da mes­ma forma que o número de vagas no vestibular é pequeno em comparação com o número de candi­datos em disputa (veja o boxe a seguir). Assim, os que pretendem alcançar esses postos ou vagas entram em competição com os demais concorren­tes. Nessa disputa, as atenções de cada competi­dor estão voltadas para a recompensa e não para os outros concorrentes.
É importante também observar que a com­petição "tende a excluir o uso da força", nas pa­lavras de Friedsam. Isso porque ela constitui um tipo de interação regulada por normas, por leis, ou mesmo pelos costumes. Quando a competição viola essas normas, transforma-se em conflito.
Há sociedades que estimulam mais a com­petição do que outras. Entre as tribos indígenas do Brasil, por exemplo, as relações não são tão acentuadamente competitivas como na sociedade capitalista. Esta última estimula os indivíduos a competirem em todas as suas atividades - na es­cola, no trabalho e até no lazer -, exacerbando o individualismo em prejuízo da cooperação.
Conflito
Quando a competição assume características de elevada tensão social, sobrevém o conflito.
Diariamente, lemos e ouvimos no noticiário dos jornais, do rádio e da televisão relatos de conflitos em diversas partes do mundo: com­bates na Colômbia entre tropas do governo e guerrilheiros ou narcotraficantes; ocupações de fazendas pelo Movimento dos Trabalhadores Ru­rais Sem-Terra (MST) no interior do Brasil, às vezes seguidas (ou precedidas) de assassinatos de líderes sindicais a mando de grandes fazen­deiros; conflitos entre israelenses e palestinos no Oriente Médio; choques armados entre sol­dados norte-americanos e rebeldes muçulmanos no Iraque.
O conflito social é um tipo de interação que se desenrola no tempo e provoca mudanças na so­ciedade, tal como a competição. Trata-se, portanto, de um processo social. Em contraste com a compe­tição, ele consiste em uma luta por bens, valores ou recursos escassos, na qual o objetivo dos con­tendores é neutralizar ou aniquilar seus oponentes. Dessa forma, ao contrário da competição, o conflito envolve, em maior ou menor escala, o emprego da violência.
Competição e conflito
Comparando a competição e o conflito, pode­mos destacar as seguintes características:
- A competição pode tomar a forma de luta pela existência, como a que se estabelece entre indivíduos para a obtenção de alimento ou em­prego, por exemplo;
- O conflito pode tomar a forma de rivalidade, disputa, revolta, revolução, litígio ou guerra.
-  O conflito é bem evidente na luta entre patrões e empregados em determinadas situações (greves, por exemplo), nas disputas pela posse da terra entre latifundiários e trabalhadores rurais sem-terra, ou ainda na guerra entre nações;
- A competição pode ser consciente ou incons­ciente; o conflito é sempre consciente, ou seja, os adversários sabem que estão em oposição;
- A competição é impessoal; o conflito é pessoal e, portanto, emocional;
 - o conflito pode implicar violência ou amea­ça de violência; já a competição não envolve violência;
- Enquanto a competição é contínua, o conflito não pode durar permanentemente com o mes­mo nível de tensão;
- No conflito, o primeiro impulso dos oponentes é tentar neutralizar ou destruir o adversário. Pessoas ou grupos em conflito podem canali­zar sua tensão tanto para a guerra como para a criminalidade, ou ainda reduzi-la a um pro­cesso de acomodação. Nem todos os conflitos, contudo, se resolvem pela violência. Muitos deles comportam negociações e acordos en­tre as partes. Esse é o caso, por exemplo, das greves de trabalhadores, uma forma de pres­são para obter conquistas, como melhores sa­lários, menos horas de trabalho, etc. Muitas dessas paralisações são solucionadas por meio de acordos ou concessões mútuas entre pa­trões e empregados.
Terrorismo
O conflito pode levar ainda a outra forma extrema de violência: o terrorismo, resultado de situações extremas de opressão ou exclusão de grupos sociais, políticos, étnicos, nacionais ou religiosos. Essas situações estimulam o surgi­mento do extremismo político ou religioso (neste caso, chamado de fundamentalismo). Enquanto todas as formas de conflito, inclusive as guer­ras, levam a uma solução, seja pelos processos de acomodação, seja pela assimilação, o mesmo não ocorre com o terrorismo. Incapaz de impor-­se pela ação política ou pela força das idéias, ele procura destruir o adversário sem medir as conseqüências.
Durante certo tempo, cientistas sociais consi­deraram  o terrorismo uma característica de socie­dades retrógradas. Alguns chegaram a supor que o processo de modernização das sociedades viria, cedo ou tarde, pôr um fim aos atentados, mes­mo que em um ou outro lugar pudessem ocorrer atos isolados.
Os acontecimentos mais recentes, contudo, não comprovam essa teoria. O sacrifício de pessoas em nome de urna causa entra, dessa maneira, na era da globalização. O atentado de 11 de setem­bro de 2001 - quando foram destruídas as torres gêmeas do World Trade Center de Nova York, nos Estados Unidos - mostra que nenhum país está imune a esse perigo. Ele pode atingir igualmen­te militares e civis; pode ocorrer na Nigéria, na Arábia Saudita, na Inglaterra, na Espanha, nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar do mundo. 
Hoje, o terrorismo encontra adeptos entre pes­soas e grupos que se sentem excluídos num mundo que está se globalizando rapidamente. Alguns deles temem perder suas culturas e tradições religiosas, como ocorre com os fundamentalistas muçulmanos. Outros se desesperam porque estão impedidos de ter sua própria pátria - ou seja, seus Estados nacionais e soberanos. Este é o caso dos palestinos no Oriente Médio. Em sua ação devastadora, provocam uma rea­ção igualmente perversa: o terrorismo de Estado.
Acomodação
Nem todo conflito termina com a extinção do oponente derrotado. Em alguns casos, este pode aceitar as condições impostas pelo vencedor para fugir à ameaça de destruição. Ocorre, assim, um processo de acomodação, pois o vencido acata as condições do vencedor e adota uma posição de su­bordinação.
A escravização dos povos vencidos, comum na Antiguidade, é um caso típico de acomodação. Quando alguém cumpre uma lei ou segue um cos­tume com os quais não concorda, só para evitar sanções ou divergências, também se enquadra num processo de acomodação.
Da mesma forma, imigrantes que chegam a ou­tro país são levados a passar por processos de aco­modação: deixam de lado sua língua e seus costu­mes, adotam modos de vida do povo que os acolheu e adaptam-se às condições da nova vida. Procuram assim se prevenir contra possíveis conflitos e viver em equilíbrio com o meio social que os cerca.
Desse modo, a acomodação é o processo so­cial pelo qual o indivíduo ou o grupo se ajus­ta a uma situação de conflito, sem que ocorram transformações internas. Trata-se, portanto, de uma solução superficial do conflito, pois este continua latente, isto é, pode voltar a se ma­nifestar. Isso acontece porque nos processos de acomodação continuam prevalecendo os mesmos sentimentos, valores e atitudes internas que se­param os grupos. As mudanças são apenas exte­riores e manifestam-se somente enquanto com­portamento social.
Os escravos, por exemplo, nunca aceitaram a situação de servidão que lhes era imposta. Ape­nas se acomodavam à dominação, mas sempre que podiam se rebelavam. Revoltas de escravos ocorreram em diversas épocas da História. A mais famosa delas foi a rebelião de Espártaco, gladia­dor que liderou cerca de 120 mil escravos contra a República romana entre 73 e 71 a.C. Nesse caso, a acomodação se transforma em conflito social, que pode assumir (ou não) grandes proporções. Em Roma, a rebelião liderada por Espártaco du­rou três anos e ficou conhecida como Guerra dos Escravos.
No Brasil, uma das formas de resistência con­tra a escravidão foi a fuga seguida da formação de quilombos - aldeamentos fortificados, nos quais os ex-escravos passavam a viver da caça, da pes­ca, do artesanato e da agricultura. O maior e mais duradouro desses aldeamentos foi o quilombo de Palmares, situado na capitania de Pernambuco. Palmares, que chegou a reunir cerca de 20 mil pessoas no interior de suas paliçadas e muralhas, funcionava como um pequeno Estado governado por seu próprio rei e resistiu a inúmeros ataques de forças portuguesas e holandesas entre 1600 e 1694, quando só então foi destruído.
Também no caso dos imigrantes, verifica-se entre eles a tendência a preservar certos traços fundamentais de sua própria cultura e a formar redes de ajuda mútua que os mantêm agrupados em comunidades no interior do país onde passam a viver.
A acomodação é, assim, o ajustamento de indi­víduos ou grupos apenas nos aspectos externos de seu comportamento. Ela atenua ou previne o con­flito. Mas este só desaparece com a assimilação.
ASSIMILAÇÃO
A assimilação é a solução definitiva e mais ou menos pacífica do conflito social. Trata-se de um processo de ajustamento pelo qual os indivíduos ou grupos antagônicos tornam-se semelhantes. Difere da acomodação porque implica transfor­mações internas nos indivíduos ou grupos, sendo estas geralmente inconscientes e involuntárias. Tais modificações internas envolvem mudanças na maneira de pensar, de sentir e de agir.
A assimilação se dá por mecanismos de imita­ção, exigindo um certo tempo para se completar. É um processo longo e complexo.
Um exemplo de assimilação é o do imigran­te que se integra inteiramente à sociedade que o acolhe. Ele, que a princípio se acomodou por con­veniência ao novo país, vai aos poucos deixando­-se envolver pelos costumes, símbolos, tradições e língua do povo desse país. Não se trata, porém, de um processo que atinja todos os imigrantes, mas somente uma parte deles.
No Brasil, ocorreram casos de assimilação en­tre os alemães em Santa Catarina e os italianos em São Paulo. No início, esses imigrantes falavam sua própria língua e conservavam seus valores e costumes. Ao preservar essas características, cada grupo se constituía em urna espécie de corpo es­tranho na sociedade brasileira.
Apenas quando as características marcan­tes da cultura de origem se atenuaram ou se desfizeram - sendo substituídas pelos hábitos e costumes locais - os imigrantes puderam ser assimilados pela nova sociedade. Aos poucos, eles se desfizeram de sua identidade cultural e
passaram a observar os sentimentos e valores da nova cultura, tornando-se parte integrante da sociedade adotada.
Concluindo, o aspecto importante da assimi­lação é que ela implica uma transformação do sen­timento de identidade. O processo de assimilação atinge áreas profundas e extensas da personalida­de, determinando novas formas de pensar, sentir e agir.

Questionário
1-     O que significa processo social?
2-    Cite 04 exemplos de processos sociais que ocorrem dentro da sala de aula.
3-    O que é processo social associativo?
4-    O que é processo social dissociativo?
5-    Quais são os principais processos sociais associativos?
6-    Quais são os principais processo sociais dissociativos?
7-    Os processos sociais incluem mudanças ao longo do tempo. Para você, isso significa que só existe processo social quando a sociedade sofre transformações radicais? Que espécie de mudanças ocorrem nos processos sociais?
8-    Quais as diferenças entre competição e conflito social? Cite três exemplos de conflito e três de competição.
9-    Explique a diferença entre acomodação e assimilação.
10- O vestibular é uma forma de processo social dissociativo? Ele gera competição? Justifique sua resposta.
11- Como podemos  desenvolver o processo social de assimilação e cooperação dentro da sala de aula?



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